quinta-feira, maio 31, 2007

Lei das crianças

Mandaram-me este artigo por e-mail. Acho o texto delicioso. Divirtam-se.

"CALEM-ME A CRIANCINHA QUE NÃO CONSIGO MASTIGAR João Miguel TavaresJornalistajmtavares@dn.pt

Estava Miguel Sousa Tavares na TVI a comentar a nova Lei do Tabaco quando da sua boca saltou esta pérola: o fumo nos restaurantes, que o Governo quer limitar, incomoda muitíssimo menos do que o barulho das crianças - e a estas não há quem lhes corte o pio. Que bela comparação. Afinal, o que é uma nuvenzinha de nicotina ao pé de um miúdo de goela aberta? Vai daí, para justificar a fineza do seu raciocínio, Sousa Tavares avançou para uma confissão pessoal: "Tive a sorte de os meus pais só me levarem a um restaurante quando tinha 13 anos." Há umas décadas, era mais ou menos a idade em que o pai levava o menino ao prostíbulo para perder a virgindade. O Miguel teve uma educação moderna - aos 13 anos, levaram-no pela primeira vez a comer fora.Senti-me tocado e fiz uma revisão de vida. É que eu sou daqueles que levam os filhos aos restaurantes. Mais do que isso. Sou daquela classe que Miguel Sousa Tavares considerou a mais ameaçadora e aberrante: os que levam "até bebés de carrinho!". A minha filha de três anos já infectou estabelecimentos um pouco por todo o país, e o meu filho de 14 meses babou-se por cima de duas ou três toalhas respeitáveis. É certo que eles não pertencem à categoria CSI (Criancinhas Simplesmente Insuportáveis), já que assim de repente não me parece que tenham por hábito exibir a glote cada vez que comem fora - mas, também, quem é que acredita nas palavras de um pai? E depois, há todo aquele vasto campo de imponderáveis: antes de os termos, estamos certos de que vão ser CEE (Crianças Exemplarmente Educadas), mas depois saltam cá para fora, começam a crescer e percebemos com tristeza que vêm munidos de vontade própria, que nem sempre somos capazes de controlar.O que fazer, então? Mantê-los fechados em casa? Acorrentá-los a uma perna do sofá? É uma hipótese, mas mesmo essa é só para quem pode. Na verdade, do alto da sua burguesia endinheirada, e sem certamente se aperceber disso, Miguel Sousa Tavares produziu o comentário mais snobe do ano. Porque, das duas uma, ou os seus pais estiveram 13 anos sem comer fora, num admirável sacrifício pelo bem-estar do próximo, ou então tinham alguém em casa ou na família para lhes tomar conta dos filhinhos quando saíam para a patuscada. E isso, caro Miguel, não é boa educação - é privilégio de classe. Muita gente leva consigo a prole para um restaurante porque, para além do desejo de estar em família, pura e simplesmente não tem ninguém que cuide dos filhos enquanto palita os dentes. Avós à mão e boas empregadas não calham a todos. A não ser que, em nome do supremo amor às boas maneiras, se faça como os paizinhos da pequena Madeleine: deixá-la em casa a dormir com os irmãos, que é para não incomodar o jantar."

quarta-feira, maio 09, 2007

Esta aprendi com uma amiga brasileira

Filosofia do cavalo de 7 de Setembro: Andando, cagando e sendo aplaudido...

sexta-feira, abril 13, 2007

Carro inflamável (ainda não tirei fotos)

Há dias normais que se transformam em absoluto - absoluta demência, emergência, coincidência, parte da vivência que vamos transportar pela nossa efémera eternidade (antítse paradoxal que atormenta a Igreja...). Entrevista marcada, mais uns quantos quilómetros, mais uma conversa e o regresso. O regresso marcou-se e pautou-se por isto que vou descrever no próximo parágrafo; um novo assunto, aquele que interessa relatar.
Ia este escriba a conduzir, quando o pendura o alerta para as faíscas que saíam a seus pés; que pare, que pare, que saia, que há perigo, que temos que sair. Tinha fumo a sair do "tablier" e chamas nos pedais. Fugir do carro, que pode explodir; mas voltar para afastar as pessoas do perigo...
- Liguei para o 112 e foi bizarro. A minha chamada correu várias instituições, ouvi música e a dificuldade era dizer onde estava. Amadora, na parte alta, onde mataram os polícias, disse o nome da rua, mas nada chegava para a pessoa do outro lado da linha. "Tenho o carro a arder à minha frente, pode explodir, já disse onde estou..." até que surgiu uma carrinha de patrulha da polícia, que ajudou a controlar as chamas até à chegada dos bombeiros (aparentemente alguém soube, lá no 112, onde era rua...).
Foi um episódio meio louco. Pessoas a aparecer do nada, a ajudar, a saber se estava tudo bem. E a imagem que retive foi a do carro em chamas e o nada que eu podia fazer. Mas houve um final menos infeliz e, à excepção do carro que ficou pronto para a sucata, ninguém se magoou e nada de muito grave aconteceu. No final, a história até era contada com sorrisos, porque de tanta coisa que podia ter corrido mal, correu menos mal. É um carro que costuma ser conduzido por estradas nacionais onde não há nada à volta a não ser mato e costuma transportar duas crianças. Fico feliz por estar envolvido no acidente, porque me parece que o carro ia incendiar-se mais cedo ou mais tarde - foi problema de curto circuito... - e assim eu estava presente para ajudar.
Fim.

quarta-feira, abril 11, 2007

E o blog?

Ah pois é, que não há maneira de eu ir actualizando o blog. Para não perder o fio à meada, vou lambendo ideias no papel, na esperança de as descarregar aqui. Mas não há maneira. E a vasta plateia que segue o meu mundo perverso e surreal (quem é que eu quero enganar...) vai anseando por novas histórias, por novas depressões líricas e até por vómito, sangue, suor, lágrimas, o que eu já habituei.
Mas a espera compensa. Nos próximos posts vou descrever a seguinte bizarria: o carro onde eu seguia ateou fogo. Sobre este assunto, texto e imagens (amanhã vou tentar obter fotografias do carro queimado), e uma pequena dissertação sobre o estranho cenário que é estar diante de um carro em chamas, as coincidências que se cruzam conosco e, ainda, as dificuldades com que nos deparamos enquanto utilizadores do 112 - tão somente um número de emergência.

sábado, março 31, 2007

Acidente

Tirei os óculos do bolso, desembrulhei as hastes dos óculos que tavam no bolso e um estrondo. Um estrondo forte, cá fora, eu a meio da escada, subi a escada toda e voltei-me e nem pensei - vi dois carros embrulhados e vi fumo e vi espanto e vi o acaso fazer cruzar a trajectória daqueles dois carros. Ninguém travou. Foi o acaso. Foi um acidente. Foi uma porcaria.

Controlo

Mas é que nem controlo. Nada, digo. Não controlo nada. Vou tentando, numa luta desigual, para depois controlar nada. É que não há mesmo nada que eu controle. É um descontrolo. Mas é mesmo assim, não é?

Desvario

Abstracção, obstrução, oblíquo, oblíquo, observação: gemo, suo, perco-me. Agonia, melancolia, ia, porque ia, porque queria. E no presente? Quero. Quero muito.
Só que agora vou saltando pelos telhados, a partir tudo. E fico-me entre a saudade, o ódio e a salada de frutas.
E as flores? É que até rima com frutas e llutas, as putas.
Ai, mais um suspiro, foi outro desvario. É tudo uma questão de memória; é tão inglória. Parece que só lembra e dói por mal, que por bem estamos hoje.
E dói-me tanto o estômago de fome, que nem consigo pensar. Que giro!

Braindead

O pior é a falta de tema. É não ter do que falar. Música, não escutam, cinema, não vêem, e depois resta o trivial. Sem empregos, restam pintelhices sem interesse nenhum.

O vidro transparente da janela

Um olhar pela janela. Telhados, antenas tortas, duas torres da mesma igreja; o rio. O sol a fazer brilhar ideias que se perdem sobre as casas e os tectos e os telhados. Coisas sem interesse.
E os góticos? Em baixo, na Baixa, por lá andam. Sou tolerante, por isso não estranho, mas estranho, isso sim, o culto da melancolia e do triste. É assim? Vampirismos à parte, será possível sorrir? Anedotam sobre o quotidiano?

Chulos

Hoje não é desses dias, mas há os que não tolero o acordeão. Aquele gente suja a pedir, a "esmolar", a chatear, às vezes até a fazerem-nos sentir mal conosco, por eles passarem necessidade. São aldrabões - falam ao telemóvel, usam adereços, um até tem córneas nos olhos, só que no Metro esconde-as, para todos sentirem pena.
Nojo e vergonha.

Tragédia, catarse, fénix, mundo real

Entro na sala dos espelhos, na sala do reflexo cru, onde me vêem todas as imperfeições. Não fixo ponto, escondo o meu olhar no vazio, aqui, ali, atrás e zás! Outra fobia, outra agonia. São os dias em que somos fracos, em que o castelo de cartas cai e desmorona, abandona a posição. Nem são dias de negação. São dias em que desistimos - não amamos, não acreditamos, não defendemos causas, não somos por ninguém, apenas tememos. Medo, suor e lágrimas; sangue, receio e tremura. Depois é simples loucura, ou paranóia, mas sobretudo suores frios. Não gosto desses das, ninguém gosta.
Catarse: choro agoniado, convulsões, medo, medo, medo, morte, escuro, vazio. Abandono, miséria, fome. A morte do ser-humano, que quando deixa de acreditar, deixa de fazer sentido.
Fénix: regresso das cinzas, da queda sem fim. Deixei o medo. Todos com a expressão "sentir a brisa na face", no gesto de erguer do chão - pisados, pisados, pisados - acima da multidão, tanta raiva para dar vazão.
´Temas não, implodi, explodi, renasci, restias de força lançam nova vaga de loucura-demência-ó-razão, absoluta frente de combater. Fraternidade, fraternidade, fraternidade! Fraternidade, liberdade, coragem, querer.

(Fora do meu labirinto de rosas negras, onde existe um mundo tão negro, mas mais real, gritou-se "Portugal, Portugal, Portugal!"; a seguir vão fazer um reality-show com ditadores...)

quinta-feira, março 29, 2007

Certezas

"Quando uma coisa é verdade, é verdade. Quando uma coisa não é verdade, não é verdade" - ouvi esta na rua. Não há nada mais importante que ter as ideias bem esclarecidas.

segunda-feira, março 19, 2007

Rua...

... Augusta: comércio de um lado e doutro, o polícia de giro, os inquéritos, o assédio, a caneta que anota, o zigue-zague para fugir do inquérito, a cola, a perseguição, mais comércio e... vento! - o cabelo a desmanchar-se, a despentear-se, a dançar-se e a estante dos postais caída no meio do chão, depois do estrondo, do barulhão, do trambulhão, postais pelo chão, os putos a rir até mais não.

Vómito

Cabeça entre as pernas. Dores abdominais. Mais uma contracção, azedo, regorgitações. Puxo o autoclismo, limpo os fios de baba que se misturam com as lágrimas das contracções abdominais e dores nos rins. Volto para a cama. A cama voa. A cama é boa. A cama não pára quieta. A cama... que agonia...

sexta-feira, março 16, 2007

Cheira-me sempre a frete

Depois do boom da internet, outro fenómeno: não há porra de sítio onde alguém se dirija para pedir informações sem que nos encaminhem para a página da internet. Ninguém sabe nada, internet, internet, internet; não entendo esta nova mecânica, repete, repete, repete, internet.

Loucos à solta

Olhar vazio, preso no chão, preso no lixo que está no chão, fixo no chão... fui interrompido por um histérico que percorria as carruagens do metro aos gritos. As pessoas quase trepavam para o colo uma das outras, para fugir daquele macaco à beira do colapso.
Isto aconteceu; em Lisboa, na vida real, num metro perto de si, fora de si, assim, se sim, para mim - para mim estão todos loucos.

quarta-feira, março 14, 2007

Escrita

Tenho a escrita. Ao menos tenho sempre a escrita. Sonâmbulo, triste, decadente, ardente, demente, um idiota, em lágrimas ou armado de sorriso - terei sempre a escrita. Essa, não a pago; essa, não a devo.
Mais sono, menos loucura. Embriagado, mas já tirei os óculos de aviador, depois de ter guiado o meu abismo pela estrada, pela noite. Há dias em que transpiro loucura - são dias de vertigem, à beira do abismo. Como dizia o outro, é um histerismo que grito para dentro, é pura confusão. Mas terei sempre a escrita.

Recupero mais um texto antigo - desta vez um conto incompleto

Comecei a sentir alguém a sacudir-me. Aos poucos retomava a consciência. A vibração da janela fez-me adormecer.
Era o revisor que me abanava, na esperança de me acordar. "- Vá lá ver! Amigo, não tenho o dia todo!", dizia-me ele. Mostrei-lhe o bilhete. O homem deixou-me em paz.
Estava de novo no comboio, a caminho de Lisboa. Era mais um fim-de-semana em casa da minha tia-avó. Costumava lá ir aos fins de semana para mergulhar na agitação da cidade, para contrastar com o ambiente rural onde vivo. Em vila do Ranço nada acontece. É um local pacato, onde habito, onde todos os dias acordo para ir trabalhar. Faço a contabilidade numa oficina de pneus, numa cidade ali perto.

(Como nunca terminei esta história, que quase nem comecei, nunca soube o que aconteceu a este personagem. Acredito, no entanto, que o aguardam aventuras em Lisboa, durante este fim-de-semana. Calculo até, que a força do seu carácter vem da sua curiosidade natural e sagacidade de espírito. E imagino, que o final da aventura seria purificador, que teria um final feliz - será que desta forma terminei o meu conto?)

Índice de Massa Corporal (IMC)


O IMC calcula-se dividindo o peso pela altura ao quadrado. Se o resultado for inferior a 18, a Organização Mundial de Saúde entende que se está perante um caso de peso a menos.
(... e peso a mais, como é?)

terça-feira, março 13, 2007

Recupero aqui um texto já antigo - mais desatinos e uma consideração final

Um dia vazio de medos e cheio de convicções: sonho que vivo por instantes. Sentar e pensar que tudo funciona.
Um beijo incompleto, interrompido por uma vida arruinada, por uma vida que nunca o foi e por uma vida que será: coito interrompido.
"Deus deu-me para depois tirar", gritei inconformado.
A outra, a que tem nome de flor, falou de coisas que me encheram de desejo, beijos húmidos naquela pele morena. Senti-a perto de mim e fechei os olhos com os seus seios encostados no meu peito.
...
Transpiro frustações na sala dos corpos moldados e caminho para uma vida nova, numa passadeira de verdades inconsequentes - saio e o chão não pára de andar, levando-me sempre naquela direcção.
Mas gritam-me lá de baixo verdades que não são as minhas e acumulo rancores daqueles que amo. Porquê? Porquê importar-me com a negação do meu querer, que é legítimo, que é feito de lutas e conquistas? Porque não é aceitável na clarividência de alguém que tomou outro caminho? Dane-se!
Ja o ventre, esse sorri-me, talvez como um aliado momentâneo, que me vê na perspectiva de uma pátria distante, de um tempo de outras guerras. Amo o ventre, mas amo a liberdade que aprendi num espaço sem angústias de daí a um minuto, daí a uma hora, daí por um dia, dias, semanas, meses, anos, muitos anos, uma eternidade.
Receio menos, mas revolto-me mais, com ganas de cuspir no chão.

P.S: como um teenager revoltado e cheio de dúvidas pode fazer sentido, num sentido poético; sentido, por dores de parto de uma idade adulta, usa palavras e expressões maduras, para, numa mentalidade infantil, simular um adulto.